Home Data de criação : 08/09/19 Última atualização : 11/10/17 11:24 / 140 Artigos publicados

A Mulher Atacante (Chico Anísio)  (Contos) escrito em terça 11 novembro 2008 14:00

amigado, analista, assunto, casado, casal, casamento, católica, chico anísio, clima, corpo, direito, doutor, flamengo, futebol, igreja, jogador, justiça, marido, médico, mulher, natal, protestante, psicanalista, quero, solução, terreiro

 

Eram marido e mulher, mas viviam tão brigando, tão discutindo, tão se desentendendo, tão sem chegarem a acordo, que mais pareciam mulher e marido. O casamento não fora na igreja, porque sendo a mulher católica e o marido protestante, mesmo antes de casarem, discutiram sem chegar a nenhuma solução.

Caso na igreja! — gritou o noivo protestante.

Caso na igreja! — protestou a noiva católica.

Como cada um se referia à sua igreja particular, acharam por bem não casar em nenhuma. Como também não se tinham casado no civil, o casamento não existia: era uma adorável amigação.

Ora, se fossem casados, poderiam tentar um desquite — amigável ou litigioso, que era mais o caso —, mas, sendo apenas amigados, de que modo poderiam separar-se? Havia coisas a discutir: com quem fica o filho, com quem a tevê, quem tem direito aos móveis, quem ganha a cama, quem perde a roupa de cama, quem leva o cachorro, etc. Essas coisas, nós sabemos, quem decide é a Justiça. Mas decide, quando o casal é casado. Amigado, tem que resolver particularmente e aquele casal jamais poderia resolver nada, de tanto que brigavam.

Mas isto não ficou nisto.

Um dia, o marido acordou, escovou o que lhe restava dos dentes, penteou o fim dos cabelos, olhou a mulher muito profundamente e, num apontar de dedos que era quase acusação, disse seco e frio:

Você é um jogador de futebol.

Ao ouvir esta frase, a mulher olhou para trás, certa de que, às suas costas, estava um desses peles que defendem a seleção canarinho com ponta de bota ou metendo a chanca na bola, segundo uns e outros.

Atrás dela, apenas a parede.

Não queira discutir nem tirar o corpo fora — insistiu o marido, já num tom veemente. — Você é um jogador de futebol.

Eu? — sussurrou a mulher, trêmula como as bandeiras em desfile.

É, você! — acusou o marido, brandindo os dedos nas ventas da mulher perplexa. — Aliás — continuou —, não é de hoje que eu olho pra você e sinto que a sua cara não me é estranha.

Nem pode ser — lembrou a mulher chorosa. — Nós somos casados. Casados! — exclamou a amigada.

Não mude de assunto — grunhiu o marido, numa irritação de quem freqüenta repartições públicas. — Eu estou falando de você, não estou me referindo ao nosso caso particular. O que nós somos, não está em discussão. Eu estou falando de você, e você é um jogador de futebol.

Dudu, você enlouqueceu — murmurou a mulher, um pouco a medo, porque já meio incrédula no que murmurava.

Esta é de cabo-de-esquadra! — monologou o marido. — Você passa anos enrustida, sem me confessar, e, de repente, só porque eu descubro (porque meu olho clínico não falha), você vem me dizer que eu enlouqueci. E sabe do que mais? Seu passe está preso. Seu passe é meu. Com essa você não contava!

E ele se riu da mulher que, chorando, já saía em busca de uma amiga, a quem telefonou aflita.

Margô, o Dudu está dizendo que eu sou jogador de futebol — contou à confidente.

De que time? — inquiriu Margô, rubro-negra, temendo que fosse do Flamengo.

De que time, o quê? Você não escutou? O Dudu, meu marido, está dizendo que eu sou um jogador de futebol.

Escutei. Tanto escutei que perguntei de que time. Entendeu?

Entender era mais fácil do que explicar; mas nem uma nem outra conseguiu realizar o que se propunha. Foi um conselho de seu cabeleireiro o que de mais aproveitável apareceu.

Leva seu marido a um médico de cuca. Seu marido está doidão, queridinha.

Se não fosse uma solução, poderia ser o começo de uma. Margô prometeu ajudá-la a convencer o marido a ir ao médico.

Sabe, Dudu — disse Margô tocando no assunto —, eu, se fosse você, ia a um psicanalista.

Cala a boca, Margô — cortou a dela o marido. — Eu estou olhando aqui pra Teteca (a esposa) e estou vendo um troço. Saquei uma, Teteca, você é ponta-de-lança!

As amigas se entreolharam. Mas Dudu ainda não tinha acabado de falar.

Você bate com as duas, pô. Nem o Paulo César joga o que você joga. Quanto custou o Paulo César? Dois bi? Você vale dois e picos. E sabe de quem é essa grana? Minha. Você tem direito a quinze por cento e lamba!

As amigas se re-entreolharam.

Cadê a bola? Quero ver se você é boa de embaixada. E não tou falando de política. Quero ver você dar umas petecadas no balão de couro.

As amigas se re-re-entreolharam enquanto Dudu ia à loja comprar uma bola para a exibição do jogador com quem se tinha casado, digo, amigado; até eu estou confuso.

Dona Teteca voltou ao médico, a quem pediu ajuda. Negativo.

Em casa, tudo conseguia ficar pior. O marido já a obrigava a fazer individuais, teste de Cooper, circuit-training, concentrações.

Um inferno!

O psicanalista guardou o segredo que os analistas fingem guardar e deu o caso por encerrado, uma vez que Dona Teteca deixou de aparecer.

Já se aproximava o Natal quando, uma tarde, no consultório, sem pedir licença à enfermeira, Dona Teteca emburacou pela porta do analista, pálida como os pós-operados. Resfolegava e sofria. Foram necessários tranqüilizantes (em pílulas e ampolas) para que ela pudesse contar o que a levara ali.

Seu marido, como vai? — perguntou o analista, sem nenhum interesse.

Ele vai bem — respondeu Dona Teteca, com as mãos a cobrir os olhos —, mas eu estou irremediavelmente perdida.

O que houve?

Ontem, doutor, ele vendeu o meu passe para o Coríntians, e eu não me dou com o clima de São Paulo.

O médico aconselhou um terreiro em Anchieta onde, com a ajuda da pombagira, ela conseguiu passe livre.

 Autoria de Chico Anísio

Compartilhar

Faça um comentário!

(Opcional)

(Opcional)

error

Importante: comentários racistas, insultas, etc. são proibidos nesse site.
Caso um usuário preste queixa, usaremos o seu endereço IP (38.107.179.220) para se identificar     


1 comentário(s)

  • STARMANDA

    Qua 12 Nov 2008 10:44

    há há rsrsrrsrrsrsr so vc mesmo que piada essa dai foi xique estraordinaria rsrsrsrsrsr valeu depois vc poe mais ...................ai heim rsrsrsrs bjusss.....


Abrir a barra
Fechar a barra

Precisa estar conectado para enviar uma mensagem para ponderacoes

Precisa estar conectado para adicionar ponderacoes para os seus amigos

 
Criar um blog