Eram marido e mulher, mas viviam tão brigando, tão discutindo, tão se desentendendo, tão sem chegarem a acordo, que mais pareciam mulher e marido. O casamento não fora na igreja, porque sendo a mulher católica e o marido protestante, mesmo antes de casarem, discutiram sem chegar a nenhuma solução.
— Caso na igreja! — gritou o noivo protestante.
— Caso na igreja! — protestou a noiva católica.
Como cada um se referia à sua igreja particular, acharam por bem não casar em nenhuma. Como também não se tinham casado no civil, o casamento não existia: era uma adorável amigação.
Ora, se fossem casados, poderiam tentar um desquite — amigável ou litigioso, que era mais o caso —, mas, sendo apenas amigados, de que modo poderiam separar-se? Havia coisas a discutir: com quem fica o filho, com quem a tevê, quem tem direito aos móveis, quem ganha a cama, quem perde a roupa de cama, quem leva o cachorro, etc. Essas coisas, nós sabemos, quem decide é a Justiça. Mas decide, quando o casal é casado. Amigado, tem que resolver particularmente e aquele casal jamais poderia resolver nada, de tanto que brigavam.
Mas isto não ficou nisto.
Um dia, o marido acordou, escovou o que lhe restava dos dentes, penteou o fim dos cabelos, olhou a mulher muito profundamente e, num apontar de dedos que era quase acusação, disse seco e frio:
— Você é um jogador de futebol.
Ao ouvir esta frase, a mulher olhou para trás, certa de que, às suas costas, estava um desses peles que defendem a seleção canarinho com ponta de bota ou metendo a chanca na bola, segundo uns e outros.
Atrás dela, apenas a parede.
— Não queira discutir nem tirar o corpo fora — insistiu o marido, já num tom veemente. — Você é um jogador de futebol.
— Eu? — sussurrou a mulher, trêmula como as bandeiras em desfile.
— É, você! — acusou o marido, brandindo os dedos nas ventas da mulher perplexa. — Aliás — continuou —, não é de hoje que eu olho pra você e sinto que a sua cara não me é estranha.
— Nem pode ser — lembrou a mulher chorosa. — Nós somos casados. Casados! — exclamou a amigada.
— Não mude de assunto — grunhiu o marido, numa irritação de quem freqüenta repartições públicas. — Eu estou falando de você, não estou me referindo ao nosso caso particular. O que nós somos, não está em discussão. Eu estou falando de você, e você é um jogador de futebol.
— Dudu, você enlouqueceu — murmurou a mulher, um pouco a medo, porque já meio incrédula no que murmurava.
— Esta é de cabo-de-esquadra! — monologou o marido. — Você passa anos enrustida, sem me confessar, e, de repente, só porque eu descubro (porque meu olho clínico não falha), você vem me dizer que eu enlouqueci. E sabe do que mais? Seu passe está preso. Seu passe é meu. Com essa você não contava!
E ele se riu da mulher que, chorando, já saía em busca de uma amiga, a quem telefonou aflita.
— Margô, o Dudu está dizendo que eu sou jogador de futebol — contou à confidente.
— De que time? — inquiriu Margô, rubro-negra, temendo que fosse do Flamengo.
— De que time, o quê? Você não escutou? O Dudu, meu marido, está dizendo que eu sou um jogador de futebol.
— Escutei. Tanto escutei que perguntei de que time. Entendeu?
Entender era mais fácil do que explicar; mas nem uma nem outra conseguiu realizar o que se propunha. Foi um conselho de seu cabeleireiro o que de mais aproveitável apareceu.
— Leva seu marido a um médico de cuca. Seu marido está doidão, queridinha.
Se não fosse uma solução, poderia ser o começo de uma. Margô prometeu ajudá-la a convencer o marido a ir ao médico.
— Sabe, Dudu — disse Margô tocando no assunto —, eu, se fosse você, ia a um psicanalista.
— Cala a boca, Margô — cortou a dela o marido. — Eu estou olhando aqui pra Teteca (a esposa) e estou vendo um troço. Saquei uma, Teteca, você é ponta-de-lança!
As amigas se entreolharam. Mas Dudu ainda não tinha acabado de falar.
— Você bate com as duas, pô. Nem o Paulo César joga o que você joga. Quanto custou o Paulo César? Dois bi? Você vale dois e picos. E sabe de quem é essa grana? Minha. Você tem direito a quinze por cento e lamba!
As amigas se re-entreolharam.
— Cadê a bola? Quero ver se você é boa de embaixada. E não tou falando de política. Quero ver você dar umas petecadas no balão de couro.
As amigas se re-re-entreolharam enquanto Dudu ia à loja comprar uma bola para a exibição do jogador com quem se tinha casado, digo, amigado; até eu estou confuso.
Dona Teteca voltou ao médico, a quem pediu ajuda. Negativo.
Em casa, tudo conseguia ficar pior. O marido já a obrigava a fazer individuais, teste de Cooper, circuit-training, concentrações.
Um inferno!
O psicanalista guardou o segredo que os analistas fingem guardar e deu o caso por encerrado, uma vez que Dona Teteca deixou de aparecer.
Já se aproximava o Natal quando, uma tarde, no consultório, sem pedir licença à enfermeira, Dona Teteca emburacou pela porta do analista, pálida como os pós-operados. Resfolegava e sofria. Foram necessários tranqüilizantes (em pílulas e ampolas) para que ela pudesse contar o que a levara ali.
— Seu marido, como vai? — perguntou o analista, sem nenhum interesse.
— Ele vai bem — respondeu Dona Teteca, com as mãos a cobrir os olhos —, mas eu estou irremediavelmente perdida.
— O que houve?
— Ontem, doutor, ele vendeu o meu passe para o Coríntians, e eu não me dou com o clima de São Paulo.
O médico aconselhou um terreiro em Anchieta onde, com a ajuda da pombagira, ela conseguiu passe livre.
Autoria de Chico Anísio











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