Trailer do filme "Desmundo", com Simone Spoladore, Caco Ciocler, Osmar Prado, Berta Zemel e Beatriz Segall. Direção de Alain Fresnot. 2001 A.F. Cinema e Vídeo
Sinopse
Brasil, por volta de 1570. Chegam ao país algumas órfãs, enviadas pela rainha de Portugal, com o objetivo de desposarem os primeiros colonizadores. Uma delas, Oribela (Simone Spoladore), é uma jovem sensível e religiosa que, após ofender de forma bem grosseira Afonso Soares D'Aragão (Cacá Rosset) se vê obrigada em casar com Francisco de Albuquerque (Osmar Prado), que a leva para seu engenho de açúcar. Oribela pede a Francisco que lhe dê algum tempo, para ela se acostumar com ele e cumprir com suas "obrigações", mas paciência é algo que seu marido não tem e ele praticamente a violenta. Sentindo-se infeliz, ela tenta fugir, pois quer pegar um navio e voltar a Portugal, mas acaba sendo recapturada por Francisco. Como castigo, Oribela fica acorrentada em um pequeno galpão. Deprimida por estar sozinha e ferida, pois seus pés ficaram muito machucados, ela passa os dias chorando e só tem contato com uma índia, que lhe leva comida e a ajuda na recuperação, envolvendo seus pés com plantas medicinais. Quando ela sai do seu cativeiro continua determinada em fugir, até que numa noite ela se disfarça de homem e segue para a vila, pedindo ajuda a Ximeno Dias (Caco Ciocler), um português que também morava na região.
Informações Técnicas
Título no Brasil: Desmundo
Título Original: Desmundo
País de Origem: Brasil
Gênero: Drama
Classificação etária: 14 anos
Tempo de Duração: 101 minutos
Ano de Lançamento: 2003
Estúdio/Distrib.: Sony Pictures
Direção: Alain Fresnot
Elenco
Simone Spoladore .... Oribela
Osmar Prado .... Francisco de Albuquerque
Caco Ciocler .... Ximeno Dias
Berta Zemei .... Dona Branca
Beatriz Segall .... Dona Brites
José Eduardo .... Governador
Débora Olivieri .... Maria
José Rubens Chachá .... João Couto
Cacá Rosset .... Afonso Soares D'Aragão
Giovanna Borghi .... Bernardinha
Laís Marques .... Giralda
Arrigo Barnabé .... Músico
Fonte: http://www.interfilmes.com/filme_13080_Desmundo-(Desmundo).html
Comentário:
Depois de vermos e estudarmos tanto sobre a colonização do nosso país, chegamos até a acreditar que conhecemos a nossa origem. As aulas de historia discorrem sobre inúmeros fatos que compõem o nosso passado, como o comércio do Pau-Brasil, as invasões, as capitanias hereditárias, etc. Porém, o que é dito com palavras, de um modo tão didático, sobre um passado tão distante, não vira imagem, não tem uma identidade e não tem rosto; conseqüentemente não gera emoção, mas sim registro.
A sinopse oficial não faz jus ao filme. Desmundo é, antes de qualquer coisa, um ponto de vista diferente oriundo de uma jovem que é forçada a ter uma vida que ela jamais desejou em um lugar que, para ela, é o ‘fim do mundo’, e comparado com sua concepção de civilização é a própria ausência desta, onde a sobrevivência é uma árdua tarefa diária. Uma visão não distante da realidade do momento, já que os homens enviados por Portugal para o Brasil encontraram, exatamente, uma selva a sua frente; e nesta luta para se estabelecer foram embrutecendo em prol de sua necessidade. Na lógica da natureza, esses homens iam se moldando, se assentando e firmando, para horror da igreja, relacionamentos nada convencionais com as índias nativas. Fato que acarretou na pressão para o envio de moças para suprir a necessidade da formação de famílias católicas, custe o que custar. No calor desta necessidade esqueceram de perguntar o desejo daquelas que, por não possuírem família, não possuíam voz. Neste aspecto estamos acostumados a imaginar a chegada de prostitutas, que pelo estigma que carregam nos diminui a pena, talvez por um preconceito infiltrado e reprovável ou talvez porque, no fundo, temos o retrato do homem colonizador e, como a vida já foi difícil para essas mulheres ‘da vida’, a sua adaptação nesta terra de ninguém seria ao menos suportável. Simplesmente não lembramos das jovens órfãs; moças da mais tenra idade, criadas e educadas por freiras e completamente despreparadas para o casamento (uma preparação advinda, na época, de conselhos de mãe e mesmo assim, quando o casamento já estava marcado e próximo).
Através dos olhos de uma das órfãs, Oribela, vamos recebendo e formando uma nova perspectiva sobre o sofrimento daquelas que ajudaram a criar esta nação. Meninas que foram responsáveis pelo surgimento de incontáveis linhagens de extrema importância para o Brasil, mas que, em contra partida, enfrentaram a desconstrução de seus ideais, hábitos e esperanças.
O diretor Alain Fresnot se levantou das críticas sem fim que o bombardearam em “Ed Mort”, para mostrar que ‘nada como um filme depois do outro’, e apresenta Desmundo com grande qualidade e ousadia, fazendo com que todos os diálogos sejam falados em português arcaico (obrigando o uso de legendas em português que coloquial). Ainda que o ritmo se apresente um pouco lento em algumas seqüências, a co-produção Brasil/Portugal, não só possui um roteiro adaptado extremamente bem estruturado, uma qualidade de interpretação de altíssimo nível e uma boa direção. Fresnot não só absorve as cores e a iluminação na mistura de sentimentos dos personagens, mas também ilustra seu filme com ângulos interessantes, alternando tomadas bem fechadas para expressar o sofrimento e angústia com tomadas amplas nos momentos de maior esperança; com menção para a cena de confronto entre Francisco e Ximeno, onde ele consegue partir de um plano totalmente aberto e ir fechando ao desenrolar da trama de modo a acentuar de forma contundente o crescer das emoções.
Simone Spoladore é Oribella de Covilã. Depois de assistirmos sua interpretação, não consigo imaginar outra atriz que conseguisse imprimir tanta emoção a ponto de se transformar na personagem e nos fazer compartilhar da sua dor apenas com o olhar. Osmar Prado é Francisco de Albuquerque, um homem que se adaptou a selva e abafou seus sentimentos, uma dramatização tão perfeita que nos surpreendemos ao vê-lo brincando durante o making of. Caco Ciocler (Sexo, Amor e Traição) é Ximeno Dias, provando que é um dos atores mais versáteis do cinema brasileiro.
Surpreendentemente o filme não foi contemplado nem com prêmios e nem com uma boa bilheteria no Brasil, tendo conseguido alcançar o seu orçamento (R$ 6 milhões) graças as bilheterias européias.
Conclusão
Mais um bom filme da nova safra de filmes brasileiros.
Curiosidade
O Brasil como terra para os banidos portugueses – “criminosos e malfeitores” – é, sem dúvida, uma imagem construída por historiadores que difundiram certas conclusões exageradas, fundadas muito mais nas próprias suposições que sobre uma pesquisa sistemática. Freqüentemente os degredados são apontados por eles como a “escória” vinda de Portugal. Afonso Ruy disse que “não bastavam as faltas dos degredados que, em assustador crescendo, eram enviados para o Brasil, esvaziando as prisões e limpando as ruas do Reino”. Ruy Nash não foi menos nefasto ao afirmar que “[...] quase tudo quanto Portugal fez pelo Brasil foi enviar duas caravelas por ano a vomitar em seu litoral esses resíduos da sociedade [...]”. Finalmente Alberto Silva com desdém comentou: “[...] o povilhéu rafado dos enxurdeiros lisboetas, a arraia miúda anônima e miserável de todos os tempos [...]”. Paulo Prado afirma no seu livro Retrato do Brasil que no alvorecer do Novo Mundo, particularmente no Brasil nos anos que se seguiram ao descobrimento, muitos degredados eram abandonados nas praias e “dessa gente raros eram de origem superior”. “De baxa manera y suerte”, “De linajes obscuros y baxos”, informam os cronistas castelhanos. Em suma: “toda a escuma turva das velhas civilizações”.
Todas essas descrições, mais imaginárias que históricas, conduziram Pedro Calmon a dizer que a “história do Brasil teria o que refletir sobre este desequilíbrio de origem”. Teria mais razão Hélio Viana, quando, adotando uma posição mais crítica com relação às interpretações rápidas sobre os degredados, comentou: “desses primeiros povoadores merecem especial atenção os degredados e os criminosos homiziados, quer pelo número, relativamente elevado, dos que aportaram a nova terra, nos dois primeiros séculos, quer pelas exageradas conclusões a que têm chegado, a seu respeito, alguns dos comentadores desse aspecto do sistema colonial português”.
De fato, os processos do Santo Ofício não retratam ilícitos terríveis, monstruosos, semelhantes aos que podemos encontrar na imprensa de hoje. É que os inquisidores tinham outras preocupações além das terrenas – principalmente aquelas relacionadas à defesa da fé e à manutenção da ortodoxia religiosa. O primeiro crime previsto no Livro 5 das Ordenações Filipinas trata, justamente, “Dos Hereges e Apóstatas”: “O conhecimento do crime da heresia pertence principalmente aos juízes eclesiásticos [...] se algum cristão leigo, quer antes fosse judeu ou mouro, quer nascesse cristão, se tornar judeu ou mouro, ou a outra seita e assim lhe for provado, nós tomaremos conhecimento dele e lhe daremos a pena segundo direito.”
Conhecer a vida quotidiana dos degredados no Brasil é uma tarefa difícil. No período do cumprimento da pena, os processos dos réus pouco, ou quase nada, revelam acerca de suas vidas no degredo, mas tais documentos continuam sempre a registrar suas súplicas comoventes, feitas ainda antes do embarque ou já no território de destino. Desembarcados no Brasil, muitos deles não pensavam senão em retornar à pátria. Arquitetavam os seus planos para conseguirem a clemência dos juízes da fé. Lamentavam sofrimentos, doenças e misérias encontradas no Brasil. Pagavam os seus crimes na Colônia e ansiavam retornar à Metrópole. Estavam com o corpo no Purgatório mas o olhar no Paraíso.
Fonte: http://www.nethistoria.com/index.php?pagina=ver_texto&titulo_id=221
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