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Crônicas

A SOLIDÃO DE CADA UM (Feitosa dos Santos)  (Crônicas) escrito em quarta 12 novembro 2008 05:00


Música: "Solidão" - Alceu Valença

Geralmente quando quero escrever, isolo-me no quarto, onde há uma mesa, um lep-top, livros e muitos pedacinhos de papeis, em cada um deles uma frase, uma palavra, um texto começado; são anotações que faço quando não estou em casa e me vem à mente uma idéia, um verso, uma imagem, uma paisagem bonita, as dificuldades e alegrias dos outros; não perco tempo, idéias são sempre valiosas.

Hoje busquei o meu quarto e ao sentar-me na cadeira em frente ao inanimado, mas indispensável computador, senti certo vazio, um devanear em relação ao que estar ocorrendo ao nosso redor. O ser humano a cada dia que passa, vai se isolando do mundo, das outras pessoas e então passa a conversar com a maquina, obra do próprio homem, um diálogo sem retorno, sem contestação, o que é pior, porque esse individuo passa a acreditar em si mesmo como o dono da verdade e contesta veementemente quando a opinião do outro vem de encontro a sua.

Após divagar por inúmeros recantos da reminiscência, pensei comigo mesmo em voz alta; não estaria eu, cansado por demais ou não seria isso um sintoma de solidão? E uma luz clareou a minha mente, que se fez interrogativa. E pensei: mas o que é a solidão? Eu nunca senti isso, não pode ser! Foi aí que me deparei escrevendo a solidão de cada um e ao mesmo tempo experimentando esse sentimento, que embora passageiro, em outros, houvera marcas por ela deixadas. Então estendi minha mão até a estante, apanhei o Aurélio, procurei e lá estava: "solidão estado do que se encontra ou vive só; isolamento", assim eu encontrei uma primeira explicação, para o meu estado solitário, nesse momento, não uma existência solitária, pois abomino a idéia de vida sob a reclusão.

Foi buscando entender esse sentimento que descobri ser a solidão um estado de espírito, pois, por vezes um individuo mesmo estando rodeado de pessoas, permanece como se sozinho estivesse, como se aqueles ao seu lado fossem invisíveis. Pude também compreender, que a solidão não é tão desesperadora como muitos afirmam. O ser humano necessita de seus momentos solitários, um tempo para ficar consigo e ouvir bem ao fundo de si mesmo a voz do silêncio.  E como isso é importante para que se refaça o caminho, se mudem as atitudes e se reflita os feitos no dia de ontem.

Aos poucos fui descobrindo que essa solidão, faz parte da nossa estrada, desde o principio da vida do homem. Dei-me conta do que o meu pai falava quase sempre que parávamos para um bate-papo; saudosas conversas!

Interessante é que eu só parei para escutar o que ele falava, quando esse já beirava seus 70 anos, meu velho e eu sempre que juntos ficávamos, passávamos um bom tempo a conversar sobre a vida, eu o apelidei de o filósofo da vida; mas na realidade falávamos sobre tudo, principalmente sobre política, seu passatempo predileto, conhecia quase todos os políticos da época e através da leitura, conhecia de Deus ao diabo e era um leitor assíduo de "O Cruzeiro", não perdia um exemplar. Falávamos de família e foi ele um ardoroso defensor de agregação do homem a terra.

Na época, não consegui entender a frase que ele dizia: "O ser humano nasce sozinho e morre sozinho". Hoje, creio ter entendido o significado dessa sentença.

Quando a saudade bater fundo em seu peito e você sentir uma necessidade de estar apenas consigo mesmo, acredite esse momento é exclusivo de cada um, permita-se a um ligeiro afastamento das coisas materiais para repensar a vida, permita-se a esse instante de solidão; necessitamos, pois, dessa introspecção para ativarmos nossas defesas, contra o que chamo de solidão depressiva.

Creio que o meu pai, embora rodeado por seus filhos, na hora de sua partida, ele estava só, com ele mesmo, ou seja, seu momento único, sem a participação de qualquer vivente desse mundo, se havia do outro, "o mundo eterno", algum ser, não posso afirmar ou discordar é um mistério que o homem não desvendou e acho que nunca desvendará. Considero a passagem da vida a maior solidão enfrentada pelo individuo humano e sabem por quê? Porque desse afastamento não há retorno. Uma única exceção, segundo a História Bíblica, foi Jesus Cristo o filho de Deus.

Pus-me a pensar, quando da gestação de uma mulher durante nove meses, onde seu útero serve de abrigo para um ser, aproximadamente 270 dias, sob o aconchego da barriga materna, carinhos de todos aqueles que o aguardam do lado de cá, suaves roçar de mãos sobre a barriga da mãe e palavras carinhosas; apesar de tudo isso, essa criança estará apenas consigo mesma, e por assim ser, essa é a primeira solidão, efetivamente, pelo qual o homem passa.

E nós sabemos passar por esse processo de solidão; quando paramos para contemplar a natureza, seus habitantes, suas criações, seus relevos e porque não, ao contemplamos uma multidão ou simplesmente quando contemplamos o nada, absortos em nossos pensamentos, sozinhos, conosco mesmos.

Percebo que as pessoas vão aceitando a condição de solitário, quando em lugares populosos, das grandes cidades, ao entrarmos em um elevador e praticarmos a educação com um bom dia ou boa noite, as que ali se encontram, não retribuem esse ato de cortesia; estão tão imbuídos em si mesmos, que não percebem o outro ou fingem que não percebem.

Um outro sintoma desse isolamento humano ocorre, quando estamos em uma fila qualquer e as pessoas puxam conversas, falam e falam sem deixar espaço para que o outro possa responder, uns aceitam conversar, outros odeiam as conversas, ficam nervosos, reclamam e por vezes perdem a compostura. É o homem repelindo o homem, num processo gradativo de isolamento da espécie.

Quem sou eu, para contestar o que esgreveu o grande poeta Fernando Antonio Nogueira Pessoa. Compreendo-o enquanto o que foi escrito refira-se a sua entidade humana: "A solidão desola-me; a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa descaminha-me os pensamentos;", posto que, a mim, a solidão me renova em inspiração, a companhia me enche de alegria e a presença do outro me traz sempre uma criatividade, não importando o direcionamento, mas o prazer de vivenciar os fatos personificados me é imensurável. E que assim sejam aos que comigo compartilham a vida e o mundo em que vivemos.

Rio, 02 de novembro de 2008 - Feitosa dos Santos
 
 
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Amizade (Atribuído a Vinícius de Moraes)  (Crônicas) escrito em sexta 07 novembro 2008 21:00


Música: "Canção da América", Milton Nascimento.
    
      
          Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos.
 
          Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.
 
          A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objetivo dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!!!
 
          Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências...
 
          A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. 
 
          Eles não irão acreditar.
 
          Muitos deles estão lendo essa crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinto que os adoro, embora não declare e não os procure. E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de quanto me são necessários, de quanto são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida. Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos morrerem, eu desabo!!!
 
          Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. 

          Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.

          Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.

          Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer... 

          Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ao talvez nunca vão saber que são meus amigos!!!

          A gente não faz amigos, reconhece-os.

Autoria atribuída a Vinícius de Moraes

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Riqueza (Raquel de Queiroz)  (Crônicas) escrito em quinta 06 novembro 2008 09:00

Blog de ponderacoes : Ponderações, Reflexões, Opiniões, Humor, Literatura, Poesia, Cinema, Música, Arte e VIDA!, Riqueza (Raquel de Queiroz)

 

Outro dia, em artigo de jornal, andei comentando esse assunto de riqueza, mas nem por isso me consegui libertar dele; ficou-me na cabeça e torno a debulhá-lo aqui, com vocês. Foi problema que sempre me interessou, esse de ser rico. Ser rico – quer dizer, ter em mãos possibilidades de poder e privilégios que o dinheiro dá – é o sonho universal das criaturas. Todo mundo precisa, quer dinheiro, o pobre para enganar a miséria, o rico para ficar riquíssimo, o pecador para satisfazer seus desejos, o santo para as suas caridades. E isso não é para admirar, pois o dinheiro representa realmente o denominador comum de tudo que tem valor material nesta vida, inclusive coisas de caráter subjetivo, como o poder, o prestígio, o renome etc. Diz-que até o amor.

Tudo isso é o dinheiro. E contudo não há coisa mais limitada do que o dinheiro, a riqueza. Pois que ele só nos vale até certo ponto, ou seja, até se chocar com os limites dessa coisa intransportável que se chama natureza humana.

Você, por exemplo, que tem o seu contadíssimo orçamento mensal, para você dinheiro é um sonho, representa mundos impossíveis – conforto, luxo, viagens, prazeres – o ilimitado. Querer uma coisa e simplesmente assinar um cheque para obter. Um jardim, um apartamento de luxo, um grande automóvel, ou mesmo o seu avião particular. Boates, teatros, Nova York, Paris! A roda da grã-finagem internacional que também se chama o “café-soçaite” ou os “idle-rich”, os ricos ociosos. Jogar bridge com a Duquesa de Windson, dançar com o Ali Khan.

E entretanto – e aí é que bate o ponto – é bom notar que isso tem um limite bastante rígido. Fora uma conta de prazeres e conquistas sociais, no fundo mais subjetivas do que objetivas, além não se pode ir. A riqueza, sendo capaz de nos proporcionar apenas o que está à venda, não nos pode dar nada de genuíno, de autêntico, de natural. Se você perde a perna num acidente, o dinheiro lhe dará a melhor perna artificial do mundo – mas artificial. Tanto no milionário como no pobrezinho com perna de pau, o coto mutilado é o mesmo, porque a natureza não se vende. E assim, quem compra cabelos supostos não pode esperar razoavelmente senão uns postiços, como já o dizia José de Alencar. E quem fura um olho, possua embora o dinheiro do Rockfeller, terá que se arranjar com um olho de vidro, como qualquer de nós.

Sem falar nas limitações do cotidiano. Pode-se ser rico como se for, não se pode aumentar em nada as extremas da nossa natureza. Comer mais do que cabe no estômago, dormir mais que as horas normais de sono, divertir-se mais do que a nossa capacidade de vigília, amar mais do que a nossa medida de amor. Nem o homem ou a mulher amada podem ser diferentes em nada da mulher do padeiro ou do namorado da copeira. Mais bem lavados, mais bem vestidos, mais refinados, porém na essência os mesmos: têm todos olhos, nariz e boca, duas mãos e dois pés. E ainda não nasceu o rico que, para mostrar o seu poder aquisitivo, procurasse uma mulher com dois narizes ou quatro braços. A riqueza, por mais que o deprave, não lhe tira o horror do monstruoso, que é uma das pedras de toque da natureza humana. O mais que ele faz é chegar a um compromisso e, em vez de mulher de dois narizes, arranjar duas mulheres. Mas aí esbarra com outro limite, pois só se pode divertir com uma mulher de cada vez, e assim, no fim das contas, ter duas ou mais vem dar na mesma coisa do que ter uma só.

Mas todas as desgraças do excessivamente rico ainda não estão em nada disso, estão em coisa pior. É que passada certa quantidade de riqueza o dinheiro deixa de ser nosso servo para nos transformar em servo dele. Dou um exemplo: um homem que possui um pequeno diamante pode andar com ele no alfinete de gravata, em qualquer parte, sem grande perigo de roubo, esquecendo até que o carrega consigo. Mas o dono do Regente ou do Kullinan não pode trazer o seu brilhante no pescoço, tem que o guardar em cofre fortíssimo, tem que o pôr no seguro, tem que viver à espreita do ladrão, do vigarista, do assaltante que, por astúcia ou violência, o tentará despojar do seu tesouro. Em vez de ser ele o dono da pedra, a pedra é que é dona dele, já que a pedra, em vez de o servir, trá-lo constantemente ao seu serviço. E o mesmo acontece com as grandes fortunas em dinheiro; um grande capitalista passa os dias e as noites não a gozar o seu dinheiro, mas a cuidar dele. A procurar empregos sólidos de capital, a vigiar as oscilações da Bolsa e do mercado, a temer revoluções, a temer os prejuízos. Nós, que pagamos no máximo alguns contos anuais de imposto de renda, não podemos calcular as ginásticas que faz para se livrar de taxas o homem que as paga aos milhões.

Moralidade: não tenha inveja dos ricos. Não tenha inveja de ninguém, que é melhor. Mas se quer invejar, inveje o simples abastado que pode satisfazer as suas necessidades e, na medida do possível, alguns dos seus sonhos. E quando nem a abastança pode ser atingida, um bom consolo para o pobre é pensar que, quer com o seu salário mínimo, quer com as rendas vertiginosas do tubarão, tanto um como o outro estão trancados nesta nossa mesma prisão de carne, este “saco de tripas” de que falava o velho Gorki; e se dentro dele pouco podemos, fora dele, então, nada nos adianta, nem dinheiro, nem grandeza, nem poderio. Aí, só a terra fria, nada mais.

Raquel de Queiroz

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